14,5 milhões de pessoas veem-se obrigadas a abandonar seus países, segundo denúncia da Cáritas

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“Toda pessoa pertence à humanidade e compartilha com a família humana inteira dos povos a esperança em um futuro melhor”. Desta constatação surge o lema “Migrantes e refugiados: rumo a um mundo melhor”, que o Papa Francisco escolheu para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado deste ano, que a Igreja celebrou no domingo, 19 de janeiro.

A reportagem está publicada no sítio da Cáritas Espanhola, 17-01-2014. A tradução é de André Langer.

Como recorda o Papa em sua mensagem para este dia, “migrantes e refugiados não são peões sobre o tabuleiro da humanidade; são crianças, mulheres e homens que abandonam ou são obrigados a abandonar suas casas por muitas razões”.

A Igreja, assinala Francisco, tem a obrigação de acompanhá-los no seu caminho, compreender as causas dos movimentos migratórios – violência, miséria, perseguição – e, sobretudo, trabalhar para acabar com a recusa, exclusão e marginalidade que muitas vezes sofrem nas comunidades de trânsito e destino. Trata-se, em suma, de passar de uma “cultura do rechaço” dos migrantes, dos refugiados e dos que pedem asilo, a uma “cultura do encontro”.

A Cáritas Espanhola, como membro da Igreja, soma-se a este apelo do Papa Francisco e denuncia a tragédia vivida pelos 14,5 milhões de pessoas que se viram obrigadas a abandonar seus lares e buscar refúgio em outros países, assim como os 28,8 milhões de deslocados internos dentro das fronteiras de seus próprios estados e o milhão de pessoas que pediu asilo em todo o mundo.

A principal causa destes movimentos forçados de população segue sendo os conflitos armados em países como Síria, Afeganistão, Iraque, República Centro-Africana, Colômbia ou Sudão.

E com estas pessoas, especialmente com as mais vulneráveis dentre elas, trabalha a Cáritas Espanhola há décadas, acompanhando-as em campos de refugiados de todo o mundo, nos países de trânsito para seu destino ou nas comunidades de acolhida.

Com os refugiados sírios

Nos últimos anos, a Cáritas Espanhola foi respondendo aos sucessivos apelos de emergência das Cáritas nacionais da Síria e dos países vizinhos para responder à enorme emergência humanitária causada pela guerra nesse país, que obrigou, desde o início do conflito, mais de 8,5 milhões de pessoas a abandonarem suas casas, das quais 6,5 milhões são deslocados internos e outros dois milhões refugiados na Jordânia, Líbano, Iraque e Turquia.

O apoio da Cáritas Espanhola às Cáritas da Síria, Líbano e Turquia priorizou projetos de distribuição de ajuda humanitária (alimentos, material de refúgio, cobertores, artigos de higiene, combustível para calefação…) e assistência médica e psicossocial para os deslocados internos e os refugiados em situação mais vulnerável.

Duas das comunidades cuja proteção é mais precária são as dos refugiados iraquianos e palestinos que viviam na Síria e agora fugiram da guerra, os primeiros para o seu país de origem e os segundos para o Líbano. Neste último, os refugiados palestinos sofrem discriminação e não têm acesso a direitos básicos, como a educação pública ou a assistência sanitária: são os últimos e não atendidos. O Governo libanês argumenta que a responsabilidade de assumir sua proteção corresponde à UNRWA, a agência da ONU para os refugiados palestinos, mas esta organização carece dos recursos necessários para fazer frente ao número crescente de palestinos que diariamente saem da Síria e chegam aos campos que administra em território libanês.

Em um destes campos de refugiados da UNRWA, o de Ein El Hilweh, trabalha a Cáritas Espanhola. Com a colaboração do Ajuntamento de Burgos, o Fundo Menorquí e a Cáritas Diocesana de Menorca, apóia-se o Centro de Solidariedade Social na distribuição de alimentos e em programas de formação sociocultural, de prevenção, de distribuição de roupas, de atenção médica, e de ócio e tempo livre para as crianças.

Assistência aos refugiados centro-africanos

caritas-con-los-refugiados-en-libiaOutra crise que está provocando um grande número de deslocados e ameaça converter-se numa catástrofe humanitária é a da República Centro-africana. Na semana passada, o diretor de operações para a Oficina para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), John Ging, alertava a comunidade internacional para o risco de genocídio que existe no país devido ao aumento da tensão entre as comunidades em conflito.

A Acnur estima em mais de um milhão o número de pessoas que tiveram que abandonar suas casas, um número que inclui tanto os 86.400 refugiados centro-africanos que fugiram para Camarões, Chade e a República Democrática do Congo, assim como as 958.000 pessoas deslocadas por causa da violência no interior da República Centro-africana.

A Cáritas Centro-africana colocou em marcha, com o apoio da rede internacional da Cáritas, um amplo programa de atendimento médico e alimentar aos deslocados, que atualmente está sendo desenvolvido em 13 campos. Até este momento, a Cáritas espanhola respondeu aos sucessivos chamados de ajuda de emergência feitos pela Cáritas Internationalis para este país africano com um total de 73.500 euros.

Presença ativa no conflito da Colômbia

Dentro da sua ação de proteção às comunidades de refugiados e deslocados em todo o mundo, a Cáritas Espanhola continua apoiando os milhares de refugiados, deslocados e migrantes provocados pelo conflito armado mais longo da América Latina, o da Colômbia, que já dura cinco décadas. Assim o faz no Equador, onde vivem cerca de 450.000 colombianos com necessidades de proteção internacional, e no interior da Colômbia com as comunidades de deslocados internos que residem nas zonas mais remotas do país, em condições de grande precariedade.

No Equador, onde os refugiados colombianos foram objeto de discriminação por parte das comunidades locais, conseguiu-se que, graças ao trabalho de acolhida e as campanhas de inclusão e de solidariedade levadas a cabo pela Cáritas Equador e de várias organizações da sociedade civil, o clima de convivência entre ambas as comunidades e as condições de vida nas zonas de acolhida tivesse melhorado significativamente.

A Cáritas Espanhola apóia há décadas este trabalho da Cáritas local com os imigrantes e refugiados colombianos, que impulsionou oportunidades de inserção em nichos de trabalho esquecidos pelos equatorianos, como a construção civil ou a agricultura.

Apelo da Cáritas Europa

Por ocasião do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado (19 de janeiro), a Cáritas Europa divulgou também uma nota na qual recorda “aos responsáveis europeus que a migração necessita de um enfoque europeu que coloque a dignidade da pessoa no centro, em conformidade com a carta da União Europeia sobre os direitos fundamentais e de todas as normas internacionais que os Estados membros ratificaram durante os últimos 50 anos”.

À luz da palavra do Papa Francisco, a Cáritas Europa insta em sua declaração “todos os órgãos decisórios da Europa a assegurar que a solidariedade entre os Estados membros, assim como entre a Europa e o resto do mundo, chegue a ser algo mais que apenas palavras no papel, como é a triste realidade atual”.

Finalmente, a Cáritas Europa assinala que durante o período 2014-2015 centrará seu trabalho no campo das migrações sobre a proteção da dignidade humana e os direitos humanos dos migrantes e solicitantes de asilo.

Fonte: IHU 

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