Precisamos avançar para águas mais profundas!

Precisamos avançar para águas mais profundas!

(Is 6,1-8; Sl 137/138; 1Cor 15,1-11; Lc 5,1-11)

Nestes primeiros domingos do tempo comum estamos sendo brindados com belíssimos encontros com a Palavra de Deus. Depois do episódio da sinagoga de Nazaré, quando Jesus foi expulso da cidade depois de apresentar-se como o profeta que veio para ir ao encontro dos marginalizados, temos hoje o belo relato da pesca que termina em chamado. Jesus já havia estado em Cafarnaum e curado um homem possuído por um espírito impuro, a sogra de Pedro curvada sob a febre, e muita gente que estava doente (cf. Lc 4,31-41). Mesmo sendo procurado por uma multidão de necessitados, Jesus se retirara para rezar, e tomara consciência de que sua missão não poderia ficar restrita a Nazaré e a Cafarnaum (cf. Lc 4,42-44) e que precisava de gente disposta aprender com ele e a participar da sua missão. E desde então, não cessa de irromper na nossa tranquila existência e provocar intermináveis redemoinhos…

“Certo dia, Jesus estava à beira do lago de Genesaré.”

A vida cristã nasce de um encontro pessoal com Jesus de Nazaré. As formas, tempos e lugares deste encontro são diversos, mas seu núcleo é sempre o mesmo. Sem este encontro pode haver ideologia religiosa, pertença sociológica à Igreja ou engajamento ético, mas não existe propriamente vida cristã. O encontro pessoal com Jesus Cristo é uma espécie de raiz que sustenta e alimenta tudo o mais. Sem isso, nossa fé corre o risco de permanecer na exterioridade, na superficialidade e na esterilidade.

Mas este encontro nem sempre ocorre numa espécie de meio vazio, com Jesus Cristo antes e o povo depois. Se não encontramos Jesus ativo e compassivo junto ao povo que sofre, poderemos ter encontrado apenas uma idéia desencarnada ou falsa de Jesus. “Jesus estava à beira do lago de Genesaré, e a multidão se comprimia ao seu redor para ouvir a Palavra de Deus.” É no meio de um povo sedento de boas notícias que os primeiros discípulos encontram Jesus.

“Subiu num dos barcos, o de Simão.”

Pode acontecer que o encontro vivo com Jesus Cristo tenha lugar depois de uma longa e criteriosa busca, mediada por exercícios espirituais e leituras teológicas. Mas pode suceder também que ele mesmo venha ao nosso encontro, irrompendo exatamente no meio das nossas ocupações cotidianas, rompendo com nossas rotinas e introduzindo novidades desestabiliadoras. O silêncio das igrejas e a harmonia do canto gregoriano não as únicas vias de acesso a Jesus de Nazaré.

Simão, Tiago e João voltam de uma noite de trabalho. Os barcos estão vazios de peixe e cheios de frustração e cansaço. Jesus vê os barcos e, mesmo percebendo que os pescadores não estão interessados na sua palavra, pede licença e sobe num deles. É de dentro da própria vida, frequentemente dura e às vezes vazia, que Jesus se aproxima do povo e assegura que as promessas de Deus estão se cumprindo; que com ele uma boa notícia finalmente é anunciada aos pobres e opimidos.

“Avança mais para o fundo!”

Simão, Tiago e João não parecem interessados com o que está acontecendo naquele momento às margens do lago de Genesaré. O cansaço e a sensação do trabalho frustrado os invade por inteiro. Não vislumbram um horizonte que não seja voltar ao mesmo trabalho na noite seguinte. Para eles, a vida dos trabalhadores não pode fazer concessão a sonhos e utopias. Seu destino está desde sempre escrito a ferro e fogo nas instituições. ‘A vida é um combate que aos fracos abate’, diz o ditado.

Não é muito diferente a vida de muitos cristãos. Infelizmente são muitos/as aqueles/as que se contentam com as rotinas de uma cultura religiosa recebida por herança e conservada por inércia. Outros/as vivem a fé como um fardo que cansa ou como um hábito que envergonha. Permanecem cristãos por conveniência ou por medo de mudar, mas o vazio e a frustração exalam por todos os poros. E o que dizer dos bispos, padres e catequistas que se conformam com às ‘antigas lições’ e lamentam o vazio dos tempos e a falta de perseverança dos catequizandos?

Jesus pede que Pedro avance para lugares mais fundos e recomece a pesca.A superficialidade nos parece tentadoramente segura, mas normalmente também é menos fecunda. Lugares profundos costumam ser arriscados e exigem prudência e habilidade. Mas a prudência não pode impedir o avanço. Como Pedro, precisamos superar a idéia de que somos pescadores experientes e tornarmo-nos discípulos e aprendizes. A superficialidade conduz inexoravelmente à esterilidade. A abertura e obediência à Palavra abre as portas à abundância e à fecundidade.

“Sou o menor dos apóstolos…”

Raramente o encontro existencial com Deus é sereno e tranquilo. Frequentemente se assemelha a um terremoto, que destrói e desestabiliza, que põe tudo de cabeça para baixo, que expõe nossa vulnerabilidade à luz do sol. Diante de uma Presença gloriosa que enche e ultrapassa o templo, Isaías descobre-se radicalmente incompetente e indigno: “Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros, vivo entre um povo de lábios impuros…” E Pedro, diante do abundante resultado da pesca, cai de joelhos e pede: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!” Paulo, por sua vez, insiste que é o menor entre os apóstolos e se compara a um corpo abortado.

E esta é uma constante no verdadeiro encontro com Deus: somos colocados/as cara a cara com a nossa realidade mais profunda e autêntica. Nossa verdade é a vulnerabilidade e a finitude, e, se as esquecemos ou negamos, a humanidade acaba pagando um alto preço. Mas somos também preciosos/as aos olhos de Deus. Ele dá impérios em troca da nossa liberdade (cf. Is 43,3-4), tatua nosso nome na palma da sua mão (cf. Is 49,16) e, tocando nossos lábios,perdoa nosso pecado e afirma nossa dignidade. Deus não é ciumento, não assegura sua glória apagando o brilho das criaturas humanas.

A experiência de encontro com Deus suscita a consciência de que somos criaturas. E isso significa, entre tantas coisas, que aquilo que somos não é uma questão de mérito, mas de dom, de graça. “É pela graça de Deus que sou o que sou”, proclama Paulo com humildade e gratidão. Somos semelhantes a Deus, e isso significa que somos chamados a ser dom, gratuidade. Quem se considera meritório/a acaba assumindo uma postura de credor/a e de cobrador/a diante de tudo e de todos. Quem se descobre agraciado/a, sente-se livre e dá livre vazão à própria generosidade.

“De agora em diante serás pescador de homens!”

Mas o encontro vivo com Jesus Cristo, que é também um encontro sincero com nossa verdade e nossa raíz mais profundas, não termina na auto-complacência ou numa quietude muito mística e pouco cristã. Depois de experimentar aquela Presença luminosa, que queimava e purificava como brasa, Isaías não consegue fazer-se indiferente à voz que pergunta quem está disposto a ser enviado, e responde: “Aqui estou! Envia-me!” E esta é também a experiência de Pedro e seus companheiros.

Jesus parece não ter dado ouvidos às palavras sinceras de Pedro, com as quais sublinhava sua indignidade. “Não tenhas medo! De agora em diante serás pescador de homens!” E ‘pescar’ (zôgreô) significa literalmente: vivificar, reunir para conservar a vida (como fez o herói nacional Sepé Tiarajú, cuja memória celebramos nesta semana). E o chamado de Pedro não é isolado. Tiago e João, companheiros e sócios no ofício da pesca, descobrem-se também companheiros e participantes da nova missão. “Eles levaram os barcos para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus.”

Se Deus nos acolhe e ama gratuitamente, sua graça não pode parar em nós. Quem recebe algo como presente não é devedor, mas precisa ser agradecido. A graça se realiza plenamente em nós quando nos tornamos pessoas agradecidas e gratuitas, quando amamos e acolhemos como fomos amados/as e acolhidos/as por Deus. Paulo gosta de dizer que a graça que Deus reservou para ele não foi estéril, e isto é comprovado pelo seu engajamento incansável em favor do seu povo e dos pagãos.

 “Celebro teu nome pela tua bondade e pela tua fidelidade!”

Jesus de Nazaré, peregrino nos santuários das dores e buscas humanas: vem, entra nesta barca que é a tua Igreja e transforma seus limitados viajantes em ardorosas testemunhas. Abre nossos ouvidos à tua Palavra, preenche nossos vazios com tua presença, cura nossas frustrações e desamarra as mãos que o medo e a acomodação imobilizaram. Engaja-nos na tua missão de reunir teus irmãos e irmãs, de promover e conservar a vida e de anunciar uma Boa Notícia que faça sentido às pessoas do nosso tempo. E isso sem esquecer que somos simples e humildes discípulos/as e servidores/as. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

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