A saúde pública e o sentido da dor

Dom Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

No dia 11 de fevereiro de 2012, celebramos o Dia Mundial do Enfermo. Tive a oportunidade de fazê-lo na Basílica Nossa Senhora de Lourdes, aqui em nossa Arquidiocese. Na próxima Quarta-feira de Cinzas começaremos a Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2012, cujo tema é: “Que a saúde se difunda sobre a Terra.” A Igreja sempre teve uma preocupação especial pelos mais necessitados, dentre eles os que sofrem enfermidades.

Na antiguidade, a cura do corpo não estava dissociada da cura da alma. Era nos templos que as pessoas podiam encontrar apoio físico, material e espiritual. Com o tempo, a sociedade se organiza e começam a existir lugares dedicados ao acolhimento e cuidado dos enfermos, especialmente ao longo das estradas do Império Romano. E têm-se notícias de grandes estruturas criadas na Índia Antiga para tal finalidade.

O amor como principal motor das ações e atitudes do cristão

Mas é no cristianismo que o conceito de hospital muda completamente. Desde o início da fé cristã, os enfermos são acolhidos pelos seguidores de Cristo. No Concílio de Nicéia em 325, se determina que ao lado de cada catedral deveria existir um lugar de acolhimento e cura.  Era percepção comum na antiguidade, de que Deus, através dos cristãos, acolhia os enfermos com carinho e amor.

Assim, o hospital, desde a ótica do “Bom Samaritano”, é um lugar para acolher o irmão necessitado. O enfermo é um hospede e, como tal, deve ser bem tratado. E com a graça de Deus e o apoio de milhares de consagradas/os, a Igreja Católica possui mais de 39 mil centros sanitários como locais para tratar a doença de Hansen, hospitais, centros para acolhida, atendimento e formação de pessoas com necessidades especiais, locais para idosos. Uma grande rede de consagrados, profissionais, leigos e voluntários que estão a serviço dos enfermos. E toda essa força e dinamismo nascem do amor a Deus e ao irmão.

Somente com amor e pelo amor é possível dispensar toda a assistência que o enfermo necessita. Está mais do que comprovado que a atenção e o carinho, que nascem do amor, são fatores essenciais para a recuperação. Os enfermos são irmãos a quem devemos estender nossas mãos.

Uma responsabilidade de todos

A saúde não é um sistema, são pessoas. Enquanto a centralidade da dignidade do ser humano não for considerada em toda sua dimensão, veremos ações irresponsáveis e injustas que clamam aos céus. É triste constatar diariamente a humilhação a que são submetidos milhões de brasileiros que devem recorrer a um tratamento de saúde. Graças a Deus, há boa vontade e interesse na imensa maioria dos agentes de saúde. No entanto, é necessário refletir e investigar seriamente o porquê de tantas injustiças e descaso. Por que não há verbas suficientes? Por que as verbas não são repassadas? Por que os pobres continuam sendo vítimas de maltratos e vilipêndios?

É tempo de dar passos importantes! Aproveitemos o tema da Campanha da Fraternidade para um sério exame de consciência. Basta de esperar longamente por melhoras, são necessárias mudanças a curto prazo e eficazes. São pessoas, crianças, idosos, trabalhadores, mães e famílias inteiras que sofrem. O Brasil tem capacidade, recursos materiais e pessoas capacitadas para erradicar esta vergonha que vivemos e vemos diariamente. Porém, nem tudo é sombra. Existem excelentes instituições, unidades e pessoas profundamente empenhadas em atender, com carinho, amor e com todos os meios disponíveis, a nossos irmãos.

A busca pela saúde não deve ser reduzida apenas ao físico. É necessário a prevenção e o cuidado harmônico da pessoa em sua totalidade. É conhecida e bem documentada a profunda unidade psicossomática espiritual do ser humano. Aproveitemos a Quaresma para intensificar nossa vida de oração e purificar nossa alma, através do Sacramento da Reconciliação.

Aproximemo-nos de Cristo, sem medo de renovar o amor e o carinho a Deus. O pecado desintegra esta unidade, fragmentando nosso ser e impedindo que vivamos com saúde plena.

Ressalte-se, também, sobremaneira, que é importante acudir os locais de atendimento de saúde para fazer um tratamento preventivo. “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?”. (I Cor 3,16). Para o Cristão, seu corpo possui uma importância única e deve ser tratado com dignidade e respeito. Cristo nos comprou por um grande preço, através do derramamento da última gota de seu sangue. (Cf. I Cor 6,20). Devemos glorificar a Deus também com nosso corpo.

Aproveito para agradecer a todos os agentes envolvidos nesta rede de solidariedade. Parabéns pelo serviço, missão e entrega de todos. Sei que há muitos obstáculos. Por isto, renovem os ânimos, busquem em Cristo, na Eucaristia e confissão frequentes todas as forças para fazer prevalecer a justiça e o amor. Não tenham medo de denunciar, com prudência e responsabilidade, estruturas que impedem o bom funcionamento dos sistemas de saúde. A providência de Deus está com vocês. Vocês não estão sozinhos nesta luta.

Missionários da cruz e de Cristo Redentor

Agora, nos dirigimos aos nossos irmãos enfermos. Todos desejamos estar com saúde. Todos temos direito a um bom atendimento. Porém, a doença é uma realidade que atinge a todos. Entramos num mistério profundo e de difícil compreensão. Em um mar, onde apenas os que já navegaram podem expressar o drama das borrascas que parecem destruir o barco da vida. Para vocês, palavras de esperança e de ânimo. A enfermidade não é, em sua dimensão primaria, um castigo de Deus, mas manifestação de nossa fragilidade humana.

Diante do mistério da dor e do sofrimento, São Paulo faz uma descoberta maravilhosa que o conduz a viver este mistério com alegria. “O apóstolo comunica a sua própria descoberta e alegra-se por todos aqueles a quem ela pode servir de ajuda – como o ajudou a ele – para penetrar no sentido salvífico do sofrimento.” (João Paulo II, Salvifici Doloris, n.1).

A nossa Redenção se realizou mediante a Cruz de Cristo, ou seja, pelo seu sofrimento. Há momentos que ele bate com força na porta de nossa vida e entra sem ser convidado, mudando todos os nossos esquemas. No entanto, como eu escrevi em outro momento: “Nosso Deus não é um Deus qualquer. Nosso Deus entrou na história, se fez carne e habitou entre nós. Ele caminhou por estas terras e também chorou. Nosso Deus não é indiferente ao nosso sofrimento, pois Ele mesmo sofreu. A dor e o sofrimento permitem compreender que o único necessário é Cristo e Ele nunca falha.” (Cf. Oração, Solidariedade e fé no momento de dor, artigo datado de 02/02/12).

Devemos carregar em nossos corações essa certeza – Cristo não nos deixa sozinhos. Desde a fé, descobrimos que tudo é dom, e a dor e o sofrimento se transformam em vocação. Somos chamados a completar em nossa carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja. (Cf. Col. 1,24).

Descobrimos em cada um dos sofrimentos humanos o próprio sofrimento redentor de Cristo. Participamos diretamente da obra de salvação. Na fé em Cristo, descobrimos que a enfermidade não é sinal de inutilidade e peso para os entes queridos, sensação inerente ao sofrimento humano. Antes de tudo, ela é motivo de salvação e redenção para nossos irmãos e irmãs.

Os enfermos são nossos irmãos que carregam junto com Cristo uma cruz pesada e que, para quem tem fé, é sinal de graça e redenção. Vocês, desde o leito, são chamados a ser missionários da cruz e da redenção. Como afirma Bento XVI: “Quem, no seu próprio sofrimento e enfermidade, invoca o Senhor, está convencido de que o Seu amor nunca o abandona, e que também o amor da Igreja, prolongamento no tempo da Sua obra salvífica, jamais desfalece.” (Bento XVI, Mensagem Dia Mundial do Enfermo, 2012).

Por isto, meus irmãos, não desfaleçam na dor. Através da fé e da oração assim oferecida, sua dor é força e motor de salvação. Vocês são missionários de Cristo Redentor. O sorriso de um enfermo que descobre o sentido da presença de Deus em seu sofrimento é uma das coisas mais belas que existem na natureza.

Que a celebração da Campanha da Fraternidade em nossa amada Arquidiocese seja um momento de valorizar a imensa rede de saúde. Recordo-me, com muito carinho também, dos agentes da pastoral da Saúde, que, agindo nos diversos níveis, levam adiante a presença cristã em todos os ambientes.

Elevemos nossas preces a Deus, por intercessão de Nossa Senhora de Lourdes, Saúde dos Enfermos e Consoladora dos Aflitos.  Ela, “stabat iuxta crucem lacrimosa”, de pé junto à cruz chorando. Mesmo na dor de ver seu filho injustiçado na cruz, Maria não se desespera. Permanece em pé e junto à Cruz. Que a saúde se difunda sobre a Terra. Que a esperança e a fé sejam as forças que movem nossas vidas e corações, e que os missionários da cruz e da redenção, que são todos nossos irmãos enfermos, sejam luz e rocha que sustentem, em Cristo e na oração, os pilares de nossa Igreja.

http://www.cnbb.org.br/site/articulistas/dom-orani-joao-tempesta/8741-a-saude-publica-e-o-sentido-da-dor

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