Fè sem fronteiras: Mateus 15,21-28

No Evangelho de Mateus, a seção 13,53 a 17,27 é a parte narrativa do quarto livrinho, e pode ser sintetizada assim: O seguimento do Mestre da justiça. O trecho de hoje pertence a essa parte narrativa. Isso nos fornece imediatamente uma pista importante: em terra estrangeira, contra todos os preconceitos farisaicos de modo geral, surge uma discípula qualificada de Jesus.

Provavelmente as comunidades de Mateus herdaram esse trecho do Evangelho de Marcos, mais antigo(Mc 7,24-30), e o modificaram (as duas narrativas não são exatamente iguais), e o conservaram com carinho por se tratar de uma mulher “conterrânea”. De fato, as comunidades de Mateus, fugindo da destruição de Jerusalém no ano 70, instalaram-se no norte da Galiléia e sul da Síria, terra dessa mulher cananéia. Estamos diante de uma incursão de Jesus em território pagão – fato que recorda um episódio na vida do profeta Elias(I Reis 17,7ss) – e logo nos damos conta de alguns detalhes importantes. Além de salientar que a mulher é pagã, Mateus quer chamar a atenção para outro aspecto, como se quisesse dizer-nos: “Prestem atenção. Tudo é puro para quem é puro”, ligando desse modo este episódio ao anterior(15,10-20), a discussão acerca do puro/impuro).

É a primeira vez que, no texto grego, esse Evangelho emprega a palavra “mesa”(nas traduções já apareceu em 8,10). E já não e a mesa da cultura judaica, normalmente um tapete ou toalha estendidos no chão, nem uma mesa no estilo romano(8,10), mas uma mesa com pernas e vão, no qual misturam-se pernas de pessoas, rabos, patas e bocas de cães domésticos, disputando migalhas ou bocados. Para o judeu, isso seria bastante improvável e até inadmissível, pois os cachorros eram contados entre os
mais impuros animais, aos quais eram atiradas carnes impuras. Normalmente, na cultura dos judeus os cães não tinham donos, menos ainda casa.

Diferentemente de Marcos, que mostra Jesus escondido numa casa, mas não consegue ficar oculto,
Mateus omite esses detalhes e põe logo a mulher cananéia em primeiro plano e gritando: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio”(v.22). Chamam a atenção alguns aspectos:
a sensibilidade da mulher/mãe: o sofrimento da filha repercute nela como se fosse somente seu; por isso não pede piedade pela filha, mas por ela. Os títulos que dá a Jesus também são interessantes(Senhor e Filho de Davi). Parece
reconhecer em Jesus o Messias servidor da vida, e não o messias poderoso e guerreiro de Pedro(16,21-23). Finalmente, é útil observar que se trata de duas mulheres(mãe e filha), e isso tem alguma importância num contexto patriarcal como o de então.A coragem dessa mulher pagã associada ao grupo dos intercessores, que não pedem para si, mas pelos outros(8,6; 9,18; 17,15). Sua atitude contrasta com a cegueira dos discípulos por um lado, e com o policiamento das lideranças por outro. É nesse sentido que se pode entender o pedido dos discípulos a Jesus: “Manda embora essa mulher, porque ela vem gritando atrás de nós”(v.23; outros estudiosos vêem nesse “manda embora” um pedido para que a mulher fosse
atendida).

A reação de Jesus é mais estranha em Mateus que em Marcos, e se manifesta em dois momentos. Primeiramente responde aos discípulos, afirmando ter sido enviado somente às ovelhas perdidas do povo de Israel; a seguir, responde à mulher,
reforçando o tema com a oposição filhos-cachorrinhos.Os judeus chamavam depreciativamente os de outras raças(pagãos) de “cães”, e nessa cena, as palavras de Jesus ressaltam, por contraste, a ousadia da mulher. Jesus havia estabelecido prioridades: a mulher crê que estabelecer prioridades não significa criar exclusões. Se na casa dela o pão era prioritariamente destinados
às crianças, isso não significa que os cachorrinhos devessem morrer de fome. Jesus responde em nível de prioridade; a mulher rebate em termos de direito: na cultura dela, também os cães “fazem parte” da família, o que não acontecia na
cultura dos judeus. E, como toda dona de casa, sabe que cotidianamente tem de pensar no pão para os filhos e também para os cachorrinhos.Evidentemente, por trás dessa metáfora escondem-se as seguintes questões: Para quem Jesus é Boa Notícia?
Somente para os judeus? A parábola da semente de mostarda, que brota, cresce e acolhe “aves” em sua sombra para que sejam fecundas(13,31-32), na hora de ser posta em prática, poderá ser esterilizada? Vários estudos desse
trecho deixam entrever na cena o jeito estranho de Jesus, sobretudo em se tratando de mulher pagã. Talvez o impacto seja atenuado se imaginarmos estar diante de um homem e uma mulher sábios, como os autores dos livros sapienciais,
na linha do que afirma uma possível tradução de Eclesiástico 21,15: “Quando o inteligente ouve uma palavra sábia, acrescenta outra”(Bíblia do Peregrino).
Nunca se duvidou da sabedoria de Jesus, mas nunca se aquilatou suficientemente a sabedoria dessa mulher. Jesus a provocou a dar um salto de qualidade, superando o preconceito judaico em relação aos estrangeiros, mulheres e cachorros. E ela não o decepcionou, dando um salto de qualidade que nenhum conterrâneo de Jesus(nem seus discípulos) foi capaz de dar. De fato, não se deve esquecer a constatação de Jesus: “Mulher, é grande a sua fé!”(v.28; também a fé do oficial romano, em 8,10: “Eu garanto a vocês: nunca encontrei fé igual a essa em ninguém de Israel”).Aquela que era considerada impura mostrou-se mais pura do que todos nós. Sem dúvida, nessa região “pagã” Jesus passa a ter mais uma discípula, um terreno fértil que pode render trinta, sessenta ou cem por um(13,8).

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